terça-feira, 12 de outubro de 2010

Partilha Quelimane

Estou aqui há horas a tentar encaixar as ideias, para conseguir transmitir por palavras o que vivi durante um mês e meio... e não é fácil porque ainda não aterrei e já lá vão 2 semanas...


Comecemos então pelo príncipio. Aterrámos em Maputo e tinhamos a grande surpresa do Carlos e do Rui à nossa espera, para nos levaram à casa das irmãs que nos iriam acolher essa noite. Despedimo-nos do grupo de Guiúa e partimos de carro. Chegámos a casa das irmãs e fomos logo bem recebidos pela Irmã Ernestina que nos acompanhou durante aquele dia. Éramos então três grupos, Quelimanas, Metoras e Quissicos!

Senti uma mistura de sensações, por um lado a expectativa em relação ao meu projecto, por outro alguma impaciência por ter que esperar um dia inteiro para apanhar o avião para Quelimane! Passámos um grande dia em Maputo, almoçámos juntos no Piri-Piri, partilhámos e convivemos.

Dia 5 de Agosto (finalmente é chegado o dia)! Apanhámos o avião para Quelimane, fomos encostadas à hélice da avioneta durante 2 horas! Toda eu era uma bolha de ansiedade, esperava pelo projecto, pelo sítio, imaginava na minha cabeça o que iriamos fazer, quem iriamos conhecer, mil coisas que passavam pela cabeça...

Chegámos a Quelimane e tinhamos a Rosie à nossa espera, uma voluntária italiana que era responsável pela casa de voluntários onde iriamos viver no próximo mês e meio. Muito simpática, embora a língua fosse durante alguns dias uma barreira entre nós e outros voluntários.

O nosso trabalho

O nosso trabalho estava integrado no ‘’Ponto de Encontro’’ um projecto da ONG italiana que nos acolhia, a PMO (Progetto Mozambico Onlus). Fomos apresentadas à nossa coordenadora do projecto, Maria da Graça, uma leiga italiana que vive em Moçambique há mais de 20 anos e aos padres Dehonianos que iriam ser a nossa referência pastoral.

Ficámos então a conhecer o projecto que era constituido por vários cursos, biblioteca, catalogação de livros, grupos e associações de jovens. Fomos distribuidas consoante as nossas maiores facilidades, a Joana deu aulas de guitarra, a Rita deu aulas de Francês, eu dei aulas de Informática a Seminaristas e a Ana deu apoio à Informática e apoio à Matemática. Além disto, decidimos abrir um Clube das Artes (artes manuais, teatro, contos), onde todas pudessem dar aulas, assim eu dava aulas juntamente com a Ana e a Rita com a Joana.

Como não tinhamos escolinha no ‘’Ponto de Encontro’’, pusemos a nossa disponibilidade às irmãs Agostinianas que nos acolheram logo. Integrámos então, as aulas de Educação Visual em duas turmas e apoio à Língua Portuguesa.

Outra necessidade que tinhamos era a de um acompanhamento pastoral mais activo, voltámos a procurar, e conhecemos o padre Honório, padre Diocesano que nos deu a conhecer o grupo de jovens da paróquia, grupo esse que fez parte da nossa caminhada.

Assim começaram os nossos dias, entre cursos, jovens, apoio à biblioteca, catalogação de livros, e tudo o que fosse preciso. Foi no apoio à biblioteca que conheci os miudos que mais me marcaram. Comecemos pelo Timóteo, o jovem bibliotecário que nos ajudava nas tarefas mais complicadas de arrumar livros, o Felisberto que fazia parte do jornal ’Magumano’’, o Valério que era poeta , o Zito que tinha um sorriso gigante, o Nedson que era um lutador, o Mirage que nos chamava de estrelas d’África, entre outros que foram marcando o nosso dia a dia. Estou a escrever e as saudades apertam de uma forma que não consigo explicar, e ainda não toquei sequer no tema mais especial para mim... as Quelimanas!

Depois de resumir o projecto e o trabalho, vou-me focar agora na parte das expectativas, aprendizagens, relações, mudanças etc.



Expectativas:

Quando cheguei tinha algumas expectativas em relação ao sítio, queria muito trabalhar com crianças, mas o P. De Encontro é básicamente frequentado por jovens, e ainda não sabiamos se íamos para a escolinha.

Um dia estava sentada num banco, ao pé da biblioteca e vejo um bebé mínimo a vir ter comigo de braços abertos, chamava-se Mariano e iria ser a minha grande paixão! O Mariano tinha um ano e meio e a mãe seropositiva, que fazia parte do grupo de apoio a doentes com HIV. Todos os dias de manhã, antes de ir para a biblioteca ía buscar o meu abracinho ao Mariano, e isso enchia-me o coração só de olhar para aqueles olhos brilhantes.



As Quelimanas:

Esta parte é de longe a mais dificil pela quantidade de emoções que acarreta. Agradeço a Deus aos Deuses, a Alá, agradeço ao Espirito Santo, e às coincidências (ou não) da vida, que fizeram com que o meu grupo fosse este. Não é fácil falar de nós e quando uma de vocês, manas, ler isto, sabe do que estou a falar. A nossa ligação, as nossas partilhas, os pauzinhos auxiliadores de partilha, a nossa sintonia, as nossas pipocas, as nossas músicas, os nossos atrofios, os abraços que eram dados na hora certa sem perguntas, só e apenas, pelo conforto e apoio. A cumplicidade criada, as barreiras que foram quebradas, o trigo que foi separado do joio. As vidas que se cruzaram e aquilo que me transmitiram e me ensinaram. OBRIGADA!





As Mudanças e Aprendizagens:

Mudei algumas coisas, porque aprendi muitas mais. Aprendi que deixar o coração à mostra não é tão dificil assim, aprendi que olhar nos olhos não custa assim tanto, aprendi que dançar o Waka Waka em frente a 50 pessoas não faz de mim uma palhaça, e se fizer, azar. Percebi o grande sentido da formação da E.A, o peso que tem em nós e nos nossos valores e integridade. Aprendi a ouvir, aprendi a intervir na altura certa, aprendi a aceitar, aprendi a valorizar... aprendi principalmente a acreditar mais em mim. Talvez seja essa a grande mudança.



Agradecimentos e conclusões:

A todas as pessoas que se cruzaram no meu caminho neste mês e meio, à Rosie pela simplicidade, à Maria da Graça pela persistência, ao Timóteo por tudo o que me ensinou, ao Felisberto por me chamar Laurinha e pelo sorriso com que sempre me dizia ‘’Olá’’, ao Valério pelos poemas que deixava e pelas partilhas que fazia, aos meus seminaristas por acreditarem neles e nas suas capacidades e por terem saido de lá com um certificado, ao grupo de jovens pela disponibilidade constante e pela garra com que dançam! Ao Mariano por me ter feito perceber, cada vez mais, que as crianças são a força do mundo e que mesmo com o estômago vazio são capazes de soltar uma gargalhada. À Equipa d’África pela oportunidade, voto de confiança e privilégio que me deu para integrar um projecto novo e tão especial e por fim... às minhas manas porque sem elas nada disto seria possivel. Obrigada por esta missão, obrigada por me terem feito crescer, obrigada por fazerem parte da minha vida!

Catarina Morna Jardim

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