sábado, 22 de agosto de 2009

Partilhando Projecto Padeiras/Setúbal…

A minha cabeça está uma confusão, ainda é cedo para fazer balanços e arrumar tantos sentimentos e tantas experiências novas… Foram 15 dias vividos intensamente. No início tudo parecia estranho: os lugares que ia conhecendo, as pessoas com quem me ia cruzando, mas com o tempo foram-se criando laços, construindo amizades. Seria difícil escolher o local onde me senti melhor. É bom saber que posso ser útil e ao mesmo tempo é assustador perceber que aqui ao meu lado existe tanta gente a precisar de ajuda.
O Centro jovem Tabor (a nossa casa como gostávamos de lhe chamar) com jovens pré delinquentes, no fundo bons miúdos que tiveram pouca sorte ou escolheram o caminho errado. Histórias de vida repletas de sofrimento, camufladas quase sempre por uma máscara de agressividade, que fui descobrindo a pouco e pouco e me fizeram aproximar de alguns deles. Foi bom ver que os cativámos, é bom pensar que enquanto pessoas e enquanto Equipa d’África deixámos algumas marcas.
A Cáritas, onde tive contacto com realidades muito diferentes, por um lado e ainda que por pouco tempo, com as crianças lindas do centro de acolhimento, a necessitar de afecto e de uma família. Os seus sorrisos, abraços, carinhos, os seus olhos a brilhar foram sem dúvida uma lufada de ar fresco para o nosso Projecto. Noutro extremo a energia, as histórias e a sabedoria dos idosos do Centro de dia cativaram-me. Mas sem dúvida que o momento mais duro foi a distribuição das refeições pelos sem-abrigo e pessoas com HIV, a maioria ainda jovens e com uma vida inteira pela frente mas irremediavelmente condicionada. Vi realidades muito diferentes daquelas a que estou habituada, miséria, solidão, rostos carregados, mas na maioria dos casos vi também sorrisos e gratidão.
Houve momentos em projecto em que o cansaço, a desilusão, a comichão e desconforto provocado pelas melgas que me devoraram eram tão grandes que dava vontade de gritar com tudo e com todos, mas foi também nesses momentos que eu percebi o significado da palavra “manos”, um sorriso, um abraço, um olhar, um “vai descansar” ou “deixa estar que eu faço” e tudo parecia bem mais fácil e simples.
Se em 15 dias vivi tudo isto…anseio pelo regresso daqueles que estão em Moçambique, por ouvir as suas histórias e tudo aquilo que estão a viver…quem sabe se para o ano serei eu…e se viver metade do que vivi neste projecto já será bastante.
Cresci, cresci tanto que não consigo descrever, não só graças às pessoas que fui conhecendo mas principalmente graças aos meus manos que admiro e de quem gosto imenso…
É bom estar de volta mas ao mesmo tempo as saudades já existem: dos momentos passados com os manos, das partilhas, das orações, das brincadeiras e actividades no centro Jovem, dos mimos, dos jantares em conjunto, das pessoas que conheci… É bom saber que estão todos à distância de um telefonema.

“O essencial é invisível aos olhos,
só se vê bem com o coração”
(Antoine de Saint-Exupéry)
nunca esta frase fez para mim tanto sentido como neste Projecto.

Lisandra